sábado, outubro 21, 2006 - 10:31 AM
Triângulo de desconhecidos
Ao entrar naquele ambiente, não conseguia colocar seus olhos sobre outra coisa que não fosse aquela bela mulher de cabelos escorridos e negros, quase azuis. Estatura média, pele transparente. Bochechas rosadas, nariz fino e pequeno. Bocas naturalmente rosas, como um batom bem fabricado.
Sabia que não deveria estar olhando, sabia que Clarice iria reparar em breve, mas a vontade e desejo eram maiores e incontroláveis. Não cessavam, não recuavam, não escapavam. Henri resolveu entregar-se por completo ao desejo, ao olhar, aos sentidos. Até porque olhar não fazia tão mal; até porque já estava cansado da maldita convenção da monogamia.
Henri era egoísta, não gostava de ninguém de verdade. Pensava em si mesmo, em seus desejos, satisfações e, claro e especialmente, em seu pinto. Seu tão belo pinto, que fazia questão de olhar e acariciar antes de dormir, em frente ao espelho - e provocava, assim, os melhores de seus gozos. Era como um ritual, uma cerimônia, uma celebração de seu único amor e paixão incessante. Estava com Clarice por amor ao seu pinto, não a ela. Gostava de ter uma outra pessoa para acariciá-lo e senti-lo também, afinal, seria injusto com o mundo não conhecer aquele deus. Adorá-lo, assisti-lo, cultuá-lo. Então Clarice estava lá, sempre disponível, sempre aberta - em todos os sentidos possíveis. Henri sabia que não a amava, mas sim ao fato de existir alguém que cultuasse seu pinto como ele o fazia: tão bem, incondicional e irracionalmente. Henri adorava e mimava aquela mulher, instrumento de orgulho e compartilhamento de seu pinto, seu deus.
Ficava com algumas mulheres às vezes, pois não agüentava a condição de exclusividade de seu pinto. Achava que era belo e perfeito demais para não ser compartilhado por mais pessoas, e assim o era. Contudo, sempre arranjou as pessoas mais distantes e fez tudo muito escondido, já que possuía um carinho especial e apego à adoração de Clarice.
O problema é que não podia estar olhando freneticamente para aquela bela mulher de cabelos escorridos, não podia. Não nas bodas de ouro dos pais de Clarice, não em um ambiente tão familiar e ameaçador.
Mas não conseguia, não conseguia. A moça já estava incomodada. Parecia esperar alguém, talvez uma amiga. É, uma amiga.
Não, não.
Após alguns minutos, surge um homem alto, de cabelos escuros e escorridos como o dela. Pele branca com bochechas rosadas, traços europeus. Com duas taças de champagne, aproximou-se e gentilmente ofereceu-lhe uma. A moça olhava-o intensamente. Estava perceptivelmente apaixonada. O homem, no entanto, parecia distante. Sempre com a mesma expressão. Henri já identificara o tipo de primeira: um conquistador barato e amante de todas as mulheres existentes. Um adorador de seu pinto também, porém assumido.
Clarice, ao perceber as olhadas constantes de Henri, comentou que ouviu falar que aquele homem estava trepando com três mulheres e um cara naquele mesmo período, e que apenas uma das pessoas sabia do fato - era Mônica, mas ninguém jamais imaginava quem seria.
Era Juan, oras. Juan. Henri estava vendo Juan naquele momento, embora os dois jamais imaginassem fazer parte de um triângulo amoroso de uma mulher irrelevante - porém presente - em suas vidas: Mônica. Henri observava-o como apenas um obstáculo desconhecido em sua futura aproximação daquela moça - provavelmente em uma outra situação que não aquela. Observava seu jeito frio de tocá-la, de senti-la, de olhá-la. Mas a moça parecia estar encantada, enxergando-o como um apaixonado, também. Em um dado momento, Henri até observou Juan dar umas checadas nos traseiros e peitos de umas mulheres enquanto beijava a moça. Ela, claro, estava de olhos fechados, dando sorrisos de felicidade em meio aos beijos.
Inveja, inveja, inveja. Henri via em Juan tudo aquilo que era em sua essência, mas nunca teria coragem de materializar. A covardia de ser o que se é em relação a mulheres: essa era a diferença entre os dois.
Após alguns minutos, Juan murmurou algo no ouvido da bela moça e os dois foram embora. Ao levantar-se, olhou de passagem para Henri, que não parava de olhar para sua acompanhante. Pensou no quanto era lindo e desejável e em como ficava com as melhores mulheres da cidade. Seu desejo pela bela moça aumentou naquele momento de raciocínio: apertou sua cintura por trás, enquanto andavam rumo à saída. Olhou para seu belo traseiro e imaginou-a nua, cavalgando sobre seu corpo.
E assim foi. Assim foi o encontro entre Henri e Juan, amores de Mônica.
Henri, o conservador frustrado, disfarçado de liberal.
Juan, o poligâmico assumido, tudo o que Henri queria ser.
Por Sódio