sábado, outubro 21, 2006 - 10:31 AM
Sobre Amélia
Jorgette tinha o sorriso mais feio que eu já havia visto até então. Dentes demais, espinhas demais. Papada assustadora, olhos pequenos, remelentos e míopes. Cabelo sarará.
Sim, cabelo sarará. Não conheço expressão melhor para definir aquele mar de pêlos que insistiam em se alojar no topo de sua cabeça feia. Apelo, então, para sarará, palavra que desconheço a origem, mas que com certeza todos dominam e entendem o conceito.
Suas roupas, e desculpem-me pela inferência preconceituosa, com certeza haviam sido achadas na lata de lixo de alguém que, depois de recentemente ter saido de um coma profundo, percebeu, espantada e levemente aliviada, que os anos 80 já haviam acabado. Todas as peças de seu triste vestuário pareciam entrar em uma estranha e horrenda combinação que parecia ressaltar todos os defeitos de seu corpo pouco atlético.
Não vou me atrever a tentar descrever seu cheiro. no extenso vocabulário da língua portuguesa não há palavras que conseguiriam transmitir verdadeiramente todo o fedor que aquela mulher exalava.
Sim, ela era um verdadeiro e, talvez cômico, desastre geográfico ambulante.
Jorgette. Jorgette era abominável. E enquanto ela me olhava, balançando seu copo de bebida barata e fedida, falando sobre xamanismo e essas coisas de mulher velha e solteirona, sorrindo como se ela tivesse acabado de ter tido uma bela trepada, eu percebi que, talvez, e esse foi o talvez mais nojento e terrível de toda a minha existência, ela estivesse dando em cima de mim.
Pânico. Medo. Muito medo.
Suei frio, apertei minha mulher para mais perto de mim.
Minha mulher, Amélia. Doce, bela, marvilhosa e sexy. muito, muiito sexy. Mil vezes sexy.
Mas Amélia-sexy conversava com Jorgette-horror sem se dar conta do que acontecia. Ria com deleite, arrumava os lindos cabelos ruivos e fazia comentários inteligentes. Ela é sempre muito inteligente.
Resolvi me afastar das duas. Fui conversar com um ou dois camaradas que pareciam discutir sobre algum esporte idiota. Fiquei ao lado deles, falando merdinhas aleatórias com ar de sabido. E, claro, eles sempre concordavam comigo, davam tapinhas em minhas costas e me chamavam de " companheiro".
Enfim, nojo.
DEmorei-me de mais conversando com meus dois novos " amigos" e, quando fui procurar Amélia para, heróicamente salvá-la da Monstrette e suas conversas baratas, levá-la para casa, servir vinho de qualidade, talvez alguns pedaços de queijo e, com certeza, uma trepadinha de boa noite, não consegui achá-la.
A festa estava acabando, a música estava ficando insuportável, todos cada vez mais bêbados, sem classe alguma. Sono. Gente feia. Meu deus.
Sentei-me, desolado. Fiquei a observar as rachaduras na parede. Amélia, Amélia, Amélia, Amélia.
Sinto uma mão nas minhas costas. Era minha mulher, finalmente.
Não consegui ficar bravo com ela, apenas a abracei, a beijei.
Mas havia algo errado. Algo muito errado.
O Cheiro, por deus.
O cheiro.
Era de Jorgette o cheiro.
Mas não, eu não havia bebido de mais. Eu reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar.
Antes que eu pudesse perguntar como, e por quê, ela estava fedendo à Jorgette, ela colocou sua mão sobre meu rosto.
Estou apaixonada, ela disse.
Eu também, respondi. Sorri e tentei beija-la. Como eu senti falta da minha Amélia. Nunca se afaste de mim. Não, não.
Eu estou apaixonada - ela continuou desviando de meu beijo - estou apaixonada pela Jorge...
NÃO.
NÃO NÃO NÃÕ NÃO.
NÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃO.
Não.
Amélia
Amélia
Amélia
Amélia
Amélia
Amélia.
Por Bicarbonato