quarta-feira, outubro 25, 2006 - 8:48 AM


Felicia


E Felícia se contentava, unicamente, em apontar e rir desdenhosamente para o joven que, enlameado, em meio à tempestade, ajudava seu cocheiro a trocar a roda que havia se quebrado da carroagem na qual ela estava confortavelmente dentro. O rico jovem, Jack, olhou-a incrédulo por entre os grossos pingos.

Exasperou-se.

-Ora, não passas de uma garotinha mimada! Como atreves a caçoar de mim quando tudo que faço é tentar consertar esta maldita carroagem! Eu poderia, por certo, ir embora, neste momento! Deixar-te-ia indefesa, em meio a este lugar nenhum no qual nos encontramos!

Felícia não se abalou. Sem retirar o sorriso do rosto, apenas arrumou os longos cabelos e falou, em um tom que denotava ironia e extremo desprezo:
-Vá, então, meu estimado amigo. Ora, fique à vontade para me abandonar. Vá e, por obséquio, nunca mais volte.

Jack riu-se.
-Ora, o que Farias sem mim? És apenas uma criança frágil! Precisas de mim, admita! Com certeza não queres sujar o vestido caro que teu pai lhe comprou ou despentear-se com toda esta tempestade!
-Não preciso de você ou de suas conversas desinteressantes sobre si mesmo. Vá embora, ande logo. Veja, Vem lá uma carroagem! Fique calado.

A carroagem parou paralelamente à carroagem de Jack. O condutor era um rapaz jovem, belo e humilde, de vestimentas modestas. Estava ensopado, pois conduzia a carroagem do lado de fora. Olhou para a bela e rica moça e perguntou-lhe se precisavam de ajuda.
-Sim, poderias, por obséquio, levar-me até a residência de meus pais? É o casarão no alto da colina mais próxima!- Apressou-se a falar Felícia.
-Claro! estou levando esta carroagem para a casa de meus patrões, mas presumo que não há de haver problema em deixar-lhe em casa. Ajudar-te-ei a sair desta carroagem sem se molhar, espere um instante...
-Não será necessário. - Rapidamente, Felícia saltou da carroagem e, para surpresa de Jack, sentou-se ao lado do rapaz que lhe prestava ajuda.
Seu vestido estava ensopado, seus cabelos desamarrados. A tintura que usava em sua pele escorria, mas Felícia continuava a sorrir, desta vez, sem o ar de ironia, para o rapaz ao seu lado.
-E quanto ao nobre senhor...? - Começou o cocheiro.
-Ele irá ficar aqui consertando sua carroagem, não se importe com ele. Vamos! - Interrompeu Felícia, antes que Jack pudesse responder.

O jovem deu uma rápida chicoteada nos cavalos, que imediatamente começaram a correr, deixando Jack, o cocheiro deste e a carroagem quebrada para trás. Felícia ria alto e alegremente, e seu riso ainda ressoava na cabeça de Jack por muito tempo depois de Felícia ter, ao lado de seu mais novo amigo, desaparecido pela penúmbra da noite.
-Mas ele... Ele é apenas um COCHEIRO! Um cocheiro, por deus! Como pôde ela me trocar por ele?- Gritou Jack. A fúria havia o deixado com o rosoto vermelho.
Virou-se para o cocheiro para, mais uma vez, reclamar do absurdo que acabava de presenciar. O cocheiro mal o ouvia. Disse simplesmente:
-A menina Felícia é realmente um encanto, não é?

Sim, na opinião do autor, Felícia é realmente um encanto. A opinião de Jack não importa, assim como ele próprio.
Algumas pessoas simplesmente estão muito presas a sí mesmas e seus valores ridículos para importarem.


Por Bicarbonato