terça-feira, novembro 07, 2006 - 5:38 PM


COM


Não se acostuma a observar o rosto de pessoas, o resto de pessoas.
Não ensinam a saborear o desperdício dos excessos do dia.
(ou das sobras da noite).
Os rostos exemplificam os por quais, os por que quis.
Quis que encarasse sempre concreto.
Concreto com que se diz do objeto de jogatina afora.
Toda vez, todo santo dia. Ou noite.
Cimento de pessoa virou estátua.
Só quem não riu foi quem colocou a placa.


Ass: Íon Pirossulfito






quinta-feira, outubro 26, 2006 - 2:04 PM


Para azular o cinzento... Eu já sei! Vou dizer a todas que pensam que eu (ainda) as amo que não é bem assim.


Por Oxigênio





quarta-feira, outubro 25, 2006 - 8:48 AM


Felicia


E Felícia se contentava, unicamente, em apontar e rir desdenhosamente para o joven que, enlameado, em meio à tempestade, ajudava seu cocheiro a trocar a roda que havia se quebrado da carroagem na qual ela estava confortavelmente dentro. O rico jovem, Jack, olhou-a incrédulo por entre os grossos pingos.

Exasperou-se.

-Ora, não passas de uma garotinha mimada! Como atreves a caçoar de mim quando tudo que faço é tentar consertar esta maldita carroagem! Eu poderia, por certo, ir embora, neste momento! Deixar-te-ia indefesa, em meio a este lugar nenhum no qual nos encontramos!

Felícia não se abalou. Sem retirar o sorriso do rosto, apenas arrumou os longos cabelos e falou, em um tom que denotava ironia e extremo desprezo:
-Vá, então, meu estimado amigo. Ora, fique à vontade para me abandonar. Vá e, por obséquio, nunca mais volte.

Jack riu-se.
-Ora, o que Farias sem mim? És apenas uma criança frágil! Precisas de mim, admita! Com certeza não queres sujar o vestido caro que teu pai lhe comprou ou despentear-se com toda esta tempestade!
-Não preciso de você ou de suas conversas desinteressantes sobre si mesmo. Vá embora, ande logo. Veja, Vem lá uma carroagem! Fique calado.

A carroagem parou paralelamente à carroagem de Jack. O condutor era um rapaz jovem, belo e humilde, de vestimentas modestas. Estava ensopado, pois conduzia a carroagem do lado de fora. Olhou para a bela e rica moça e perguntou-lhe se precisavam de ajuda.
-Sim, poderias, por obséquio, levar-me até a residência de meus pais? É o casarão no alto da colina mais próxima!- Apressou-se a falar Felícia.
-Claro! estou levando esta carroagem para a casa de meus patrões, mas presumo que não há de haver problema em deixar-lhe em casa. Ajudar-te-ei a sair desta carroagem sem se molhar, espere um instante...
-Não será necessário. - Rapidamente, Felícia saltou da carroagem e, para surpresa de Jack, sentou-se ao lado do rapaz que lhe prestava ajuda.
Seu vestido estava ensopado, seus cabelos desamarrados. A tintura que usava em sua pele escorria, mas Felícia continuava a sorrir, desta vez, sem o ar de ironia, para o rapaz ao seu lado.
-E quanto ao nobre senhor...? - Começou o cocheiro.
-Ele irá ficar aqui consertando sua carroagem, não se importe com ele. Vamos! - Interrompeu Felícia, antes que Jack pudesse responder.

O jovem deu uma rápida chicoteada nos cavalos, que imediatamente começaram a correr, deixando Jack, o cocheiro deste e a carroagem quebrada para trás. Felícia ria alto e alegremente, e seu riso ainda ressoava na cabeça de Jack por muito tempo depois de Felícia ter, ao lado de seu mais novo amigo, desaparecido pela penúmbra da noite.
-Mas ele... Ele é apenas um COCHEIRO! Um cocheiro, por deus! Como pôde ela me trocar por ele?- Gritou Jack. A fúria havia o deixado com o rosoto vermelho.
Virou-se para o cocheiro para, mais uma vez, reclamar do absurdo que acabava de presenciar. O cocheiro mal o ouvia. Disse simplesmente:
-A menina Felícia é realmente um encanto, não é?

Sim, na opinião do autor, Felícia é realmente um encanto. A opinião de Jack não importa, assim como ele próprio.
Algumas pessoas simplesmente estão muito presas a sí mesmas e seus valores ridículos para importarem.


Por Bicarbonato






segunda-feira, outubro 23, 2006 - 9:53 PM


Monica finalmente descobrira que não gostava de Henri como Juan porque se identificava com Henri: Juan era tudo aquilo o que eram e não conseguiam exteriorizar.


Por Sódio





sábado, outubro 21, 2006 - 10:58 AM


Evoquemos Nietzsche!


Friedrich Nietzsche e as mulheres: como alguém que soubesse tão pouco do outro (tanto as mulheres acerca de Nietzsche quanto ele acerca delas) pôde descrevê-las (agora apenas Nietzsche descrevendo-as; elas dirão o que pensam nos comentários) tão bem?


O filósofo-das-enxaquecas teve muita sorte: nasceu num ambiente com quatro ou cinco mulheres e nenhum macho. Ele sabe o que diz! E o que diz Nietzsche? O amor é o amor pelo desejo que se sente de amar. Nunca pela pessoa em si ou pelo desejo do outro para consigo, mas claro que é conseqüência da "pseudo-devoção" exercida esperar que ela reproduza os sentimentos, em dobro, quiçá o triplo. O amor é uma disputa pelo poder, como toda e qualquer relação humana, talvez descartando-se a amizade pura que tem por objetivo a convergência do conhecimento, uma sabedoria reciprocamente construída, a onisciência mútua, altruísta. Impossível para um homem e uma mulher que se sintam atraídos!



O amor era bom e necessário para o homem. Mas daí a deixar-se sublevar por ele? Nietzsche sempre odiou inflamações! Jovens, imaturos... Quanto desperdício de vigor. Numa relação de poder o que não pode é se deixar por baixo. Ainda que se sofra, ainda que se queira que o outro deseje mais a si, é prudente não sucumbir a gestos ou posturas humilhantes. Quem é você para dizê-lo, Frederico? Até onde sei, deixou-se fotografar ao lado de uma mulher e (!) outro homem; o primeiro desses curiosos entes sustentava um chicote na mão. Nietzsche olha para o céu na foto.



Pensando bem, eu entendo: como pode um "virgem da dor do amor" aprender sem errar? Depois que o primeiro triângulo não deu certo, nunca mais se ouviu de Nietzsche se arriscando na Geometria, a não ser numa que soasse "bem familiar". Lou Salomé, a chicoteadora, a despeito da beleza e do poder ("a" palavra) de argumentação, não fazia mais efeito sobre ele, pois ele inventou o "fechar de olhos". Quisera Nietzsche ser congelado em 1899 e ressuscitado em 2006 para fazer um profile no Orkut. Reservo-me ao direito de permanecer 24 horas de olhos abertos sem me subjugar a poderes que emanam de semblantes alheios. Dizem que as fotos melhoram as pessoas. Eu diria que "invertem": podem melhorar ou podem piorar, da aparência à índole. Desde 1882. Alguém que sustentava um chicote e transpirava imponência... pode não ter sido tudo aquilo. Hoje, ah, hoje... os chicotes são invisíveis.


Por Oxigênio






Triângulo de desconhecidos


Ao entrar naquele ambiente, não conseguia colocar seus olhos sobre outra coisa que não fosse aquela bela mulher de cabelos escorridos e negros, quase azuis. Estatura média, pele transparente. Bochechas rosadas, nariz fino e pequeno. Bocas naturalmente rosas, como um batom bem fabricado.

Sabia que não deveria estar olhando, sabia que Clarice iria reparar em breve, mas a vontade e desejo eram maiores e incontroláveis. Não cessavam, não recuavam, não escapavam. Henri resolveu entregar-se por completo ao desejo, ao olhar, aos sentidos. Até porque olhar não fazia tão mal; até porque já estava cansado da maldita convenção da monogamia.

Henri era egoísta, não gostava de ninguém de verdade. Pensava em si mesmo, em seus desejos, satisfações e, claro e especialmente, em seu pinto. Seu tão belo pinto, que fazia questão de olhar e acariciar antes de dormir, em frente ao espelho - e provocava, assim, os melhores de seus gozos. Era como um ritual, uma cerimônia, uma celebração de seu único amor e paixão incessante. Estava com Clarice por amor ao seu pinto, não a ela. Gostava de ter uma outra pessoa para acariciá-lo e senti-lo também, afinal, seria injusto com o mundo não conhecer aquele deus. Adorá-lo, assisti-lo, cultuá-lo. Então Clarice estava lá, sempre disponível, sempre aberta - em todos os sentidos possíveis. Henri sabia que não a amava, mas sim ao fato de existir alguém que cultuasse seu pinto como ele o fazia: tão bem, incondicional e irracionalmente. Henri adorava e mimava aquela mulher, instrumento de orgulho e compartilhamento de seu pinto, seu deus.

Ficava com algumas mulheres às vezes, pois não agüentava a condição de exclusividade de seu pinto. Achava que era belo e perfeito demais para não ser compartilhado por mais pessoas, e assim o era. Contudo, sempre arranjou as pessoas mais distantes e fez tudo muito escondido, já que possuía um carinho especial e apego à adoração de Clarice.


O problema é que não podia estar olhando freneticamente para aquela bela mulher de cabelos escorridos, não podia. Não nas bodas de ouro dos pais de Clarice, não em um ambiente tão familiar e ameaçador.


Mas não conseguia, não conseguia. A moça já estava incomodada. Parecia esperar alguém, talvez uma amiga. É, uma amiga.
Não, não.
Após alguns minutos, surge um homem alto, de cabelos escuros e escorridos como o dela. Pele branca com bochechas rosadas, traços europeus. Com duas taças de champagne, aproximou-se e gentilmente ofereceu-lhe uma. A moça olhava-o intensamente. Estava perceptivelmente apaixonada. O homem, no entanto, parecia distante. Sempre com a mesma expressão. Henri já identificara o tipo de primeira: um conquistador barato e amante de todas as mulheres existentes. Um adorador de seu pinto também, porém assumido.
Clarice, ao perceber as olhadas constantes de Henri, comentou que ouviu falar que aquele homem estava trepando com três mulheres e um cara naquele mesmo período, e que apenas uma das pessoas sabia do fato - era Mônica, mas ninguém jamais imaginava quem seria.


Era Juan, oras. Juan. Henri estava vendo Juan naquele momento, embora os dois jamais imaginassem fazer parte de um triângulo amoroso de uma mulher irrelevante - porém presente - em suas vidas: Mônica. Henri observava-o como apenas um obstáculo desconhecido em sua futura aproximação daquela moça - provavelmente em uma outra situação que não aquela. Observava seu jeito frio de tocá-la, de senti-la, de olhá-la. Mas a moça parecia estar encantada, enxergando-o como um apaixonado, também. Em um dado momento, Henri até observou Juan dar umas checadas nos traseiros e peitos de umas mulheres enquanto beijava a moça. Ela, claro, estava de olhos fechados, dando sorrisos de felicidade em meio aos beijos.

Inveja, inveja, inveja. Henri via em Juan tudo aquilo que era em sua essência, mas nunca teria coragem de materializar. A covardia de ser o que se é em relação a mulheres: essa era a diferença entre os dois.


Após alguns minutos, Juan murmurou algo no ouvido da bela moça e os dois foram embora. Ao levantar-se, olhou de passagem para Henri, que não parava de olhar para sua acompanhante. Pensou no quanto era lindo e desejável e em como ficava com as melhores mulheres da cidade. Seu desejo pela bela moça aumentou naquele momento de raciocínio: apertou sua cintura por trás, enquanto andavam rumo à saída. Olhou para seu belo traseiro e imaginou-a nua, cavalgando sobre seu corpo.



E assim foi. Assim foi o encontro entre Henri e Juan, amores de Mônica.
Henri, o conservador frustrado, disfarçado de liberal.
Juan, o poligâmico assumido, tudo o que Henri queria ser.


Por Sódio






Juan, o óbvio misterioso


Conheci Juan no lugar mais propício para fazê-lo: em uma festa. Festa com boa música, boa bebida e algumas pessoas interessantes. Não havia muita gente, até porque era dia de semana. Ele chegou do nada na festa - sozinho - e veio falar comigo, puxando um assunto óbvio e esperado, já que nos conhecíamos de vista há algum tempo.

Pediu meu telefone para sairmos e eu não hesitei. Afinal, Juan possuía muitos amigos em comum a mim e já havíamos conversado em uma outra festa, embora tenha sido algo sutil e de impressão final como sendo um completo idiota e arrogante. O idiota e arrogante é intrigante, já que não é burro e vulnerável. Não concorda com tudo o que falo, não hesita em falar o que acha. Interessante, muito interessante, meu inconsciente não tão inconsciente pensava.

Tocava uma música da Blondie, minha banda favorita há alguns anos atrás, quando nos beijamos. Foi meio inesperado, ele simplesmente beijou e me entreguei, sem pensar em absolutamente nada.
Foi bom. Bom e estranho, bom e inigualável - não que exista algo igualável, mas digo inigualável no sentido de superior e especialmente distinto e maravilhoso.

Subimos para conversar. Ele dizia coisas óbvias como o bom adorador de Platão que era: Os deuses nos colocaram aqui. Não estou falando com você, mas com a sua alma. Você não se lembra, mas é só se recordar e se lembrará de mim. Já conhecia o tipo dele, não havia dúvidas: ficava com todas as mulheres que achava interessante e provavelmente homens também - embora tivesse uma cara de que não gostava que terceiros soubessem. Não reprimia seus desejos. Fazia o que queria, sem hesitar muito. Parecíamos nos conhecer há anos - me senti um pouco estúpida no momento em que pensei nisso, pois condizia exatamente com as frases-feitas sobre as quais ele falava. Em um dado momento, Juan disse que havia ficado com outra pessoa naquele dia. Achei admirável e o amei mais a partir daquele momento, pois estava sendo sincero. Não era como Henri, que fingia-se de fiel e achava que me enganava. Via mais fidelidade em Juan, que me respeitava e dizia a verdade.

Ai, Juan era um enigma, um mistério. Parecíamos nos entender perfeitamente. Mas era tudo um jogo, eu sabia. Era tudo um jogo, e ele dizia Sem jogos, Mônica. Sem jogos entre nós dois. Minha mente ria dessas bobagens e de suas tentativas frustradas de me enganar. Entretando, meu coração sentia, batia rapidamente. Eu tremia, olhava para seus olhos e sorriso e realmente sentia, a cada momento, que o conhecia há vários anos.

Parei de olhar para seus olhos.
Sentia-me cada vez mais medíocre, manipulável e estúpida.
Meu coração acreditava que ele não estava me enganando, mas estava, estava.

Pensei na minha estupidez mais uma vez, pois havia adquirido uma posição de defensiva exacerbada.
Não conseguia olhar para seus olhos, embora ele pedisse a todo momento para que o fizesse. Disse que riríamos de tudo aquilo, que tudo iria ficar bem, que queria me conhecer, conversar comigo.


Fiquei com medo, pois sabia exatamente como seria.
Não queria me condicionar àquilo, não queria.
Entretanto, os momentos ao seu lado eram maravilhosos.
Queria fazer amor com ele logo, embora minha razão e condições não permitissem.


Henri, Juan.
Juan, Henri.






Voltei para minha condição de metal e fui para a crosta terrestre, fingir que nada estava acontecendo.


Por Sódio






Sobre Amélia


Jorgette tinha o sorriso mais feio que eu já havia visto até então. Dentes demais, espinhas demais. Papada assustadora, olhos pequenos, remelentos e míopes. Cabelo sarará.
Sim, cabelo sarará. Não conheço expressão melhor para definir aquele mar de pêlos que insistiam em se alojar no topo de sua cabeça feia. Apelo, então, para sarará, palavra que desconheço a origem, mas que com certeza todos dominam e entendem o conceito.

Suas roupas, e desculpem-me pela inferência preconceituosa, com certeza haviam sido achadas na lata de lixo de alguém que, depois de recentemente ter saido de um coma profundo, percebeu, espantada e levemente aliviada, que os anos 80 já haviam acabado. Todas as peças de seu triste vestuário pareciam entrar em uma estranha e horrenda combinação que parecia ressaltar todos os defeitos de seu corpo pouco atlético.
Não vou me atrever a tentar descrever seu cheiro. no extenso vocabulário da língua portuguesa não há palavras que conseguiriam transmitir verdadeiramente todo o fedor que aquela mulher exalava.
Sim, ela era um verdadeiro e, talvez cômico, desastre geográfico ambulante.

Jorgette. Jorgette era abominável. E enquanto ela me olhava, balançando seu copo de bebida barata e fedida, falando sobre xamanismo e essas coisas de mulher velha e solteirona, sorrindo como se ela tivesse acabado de ter tido uma bela trepada, eu percebi que, talvez, e esse foi o talvez mais nojento e terrível de toda a minha existência, ela estivesse dando em cima de mim.
Pânico. Medo. Muito medo.
Suei frio, apertei minha mulher para mais perto de mim.
Minha mulher, Amélia. Doce, bela, marvilhosa e sexy. muito, muiito sexy. Mil vezes sexy.
Mas Amélia-sexy conversava com Jorgette-horror sem se dar conta do que acontecia. Ria com deleite, arrumava os lindos cabelos ruivos e fazia comentários inteligentes. Ela é sempre muito inteligente.

Resolvi me afastar das duas. Fui conversar com um ou dois camaradas que pareciam discutir sobre algum esporte idiota. Fiquei ao lado deles, falando merdinhas aleatórias com ar de sabido. E, claro, eles sempre concordavam comigo, davam tapinhas em minhas costas e me chamavam de " companheiro".
Enfim, nojo.

DEmorei-me de mais conversando com meus dois novos " amigos" e, quando fui procurar Amélia para, heróicamente salvá-la da Monstrette e suas conversas baratas, levá-la para casa, servir vinho de qualidade, talvez alguns pedaços de queijo e, com certeza, uma trepadinha de boa noite, não consegui achá-la.
A festa estava acabando, a música estava ficando insuportável, todos cada vez mais bêbados, sem classe alguma. Sono. Gente feia. Meu deus.
Sentei-me, desolado. Fiquei a observar as rachaduras na parede. Amélia, Amélia, Amélia, Amélia.

Sinto uma mão nas minhas costas. Era minha mulher, finalmente.
Não consegui ficar bravo com ela, apenas a abracei, a beijei.

Mas havia algo errado. Algo muito errado.
O Cheiro, por deus.
O cheiro.
Era de Jorgette o cheiro.
Mas não, eu não havia bebido de mais. Eu reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar.
Antes que eu pudesse perguntar como, e por quê, ela estava fedendo à Jorgette, ela colocou sua mão sobre meu rosto.
Estou apaixonada, ela disse.
Eu também, respondi. Sorri e tentei beija-la. Como eu senti falta da minha Amélia. Nunca se afaste de mim. Não, não.
Eu estou apaixonada - ela continuou desviando de meu beijo - estou apaixonada pela Jorge...
NÃO.
NÃO NÃO NÃÕ NÃO.
NÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃO.
Não.

Amélia
Amélia
Amélia
Amélia
Amélia
Amélia.


Por Bicarbonato






Na busca pelo fim da busca


O Sódio. Na. Ou seria aN, ou oidós? Ou, ainda, todos os enigmas que estão por trás destes símbolos, que agora são apenas letras orfãs, sem histórias reconhecidas?

Minha presença na Terra não me apetece. Quero mais, desejo o maior, o infinito, aquilo que sou incapaz. Talvez por isso seja abundante nas estrelas, na crosta terrestre, nos metais alcalinos que tanto entro em conflito e harmonia simultaneamente. Estou na crosta, vocês me vêem? Estou na crosta, na crosta. Buscando, tentando, criando receios, interrupções, atrações, problemas, insuficiências. Decorrentes da minha insatisfação, da minha inquietude, desespero.

Quero uma função, busco desesperadamente uma função com sentido - não aquelas várias que os humanos criaram para sentirem-se úteis. Enquanto não a encontro - possivelmente não a encontrarei -, vivo, tentando pensar menos, desejar menos, ser mais. Me engano porque querer desejar menos e ser mais é o mais extremo e absurdo dos desejos: aquele que te deixa inquieto e não te permite; aquele que é o cúmulo do desejar e, assim, da insatisfação.

Não creio na razão dos humanos, não sou prepotente. A luz não me alcança, não ilumina a ponto de mostrar tudo aquilo tal como é. Deve ser por isso que, ao ser exposto à luz, emito elétrons freneticamente, inquieto. A luz daqui nada mais faz que me intrigar. Quem sabe um dia, em outro planeta, ou outro estado, ou em outro aquilo que não se sabe e não se possui palavras para descrever exatamente por ser desconhecido, possa irradiar e habitar em algo único e sem distinções e ilusões de luzes, iluminações, pontos finais e todas essas mediocridades daqui.


E assim prossigo, como sódio.
Apenas sódio,
inquieto e quieto, na escuridão da claridade da luz,
na patética busca pelo fim da busca, pelo fim do desejo.


Por Sódio






Henri e Juan


Após aquela noite simplória com Henri fiquei com um sorriso incontrolável e bobo, daqueles ocasionados por momentos que não se descrevem por falta de palavras ou racionalidade para tal - e como gosto disso!

Não sabia - e ainda não sei - do que se trata, afinal efemeridades ocorrem a todo momento. Não tenho o mínimo conhecimento do que possa ter sido - ou possa estar sendo, quem sabe. Não consigo descrever o que sinto e minhas inseguranças não permitem materializar muitas coisas, também. Talvez se trate de um gostar de conteúdo, juntamente com paixão e boas conversas.

E enquanto isso Juan está lá, não se permitindo ser, se restringindo na reprodução de imagens e correntes-padrão, deixando de gostar do que gostaria para se enquadrar naquele personagem "belo e perfeito" para ele. E ah, vejo tanto potencial em Juan. Quando olho para seus olhos, sorrisos e atitudes - recomenda-se pular a próxima frase se clichês não são bem-vindos - sinto-me como um de seus parentes, ou ao menos alguém que conheço há tempos. Nossos beijos são de encaixe perfeito, como nunca imaginei existir. Há, também, uma necessidade perturbadora de ajudá-lo de alguma forma.

Juan fechou-se dentro de uma embalagem, um conceito, um rótulo. A partir daí, não aceita outras informações, outras músicas, outras roupas, ocasiões ou oportunidades diferentes. Medo de não se identificar por completo com algo existente no mundo - grupos que estabelecem gostos, gêneros e escolhas próprias a se seguir, vetando a "livre-escolha" das pessoas, embora esta opção já seja uma escolha (melhor parar por aqui com este raciocínio, pois dará "pau" em breve) -, medo de não possuir uma identidade, um reconhecimento.

E quem não se submete a isso de alguma forma e intensidade, não é mesmo?


Mas bem, só queria salvar Juan.
Não que eu seja a melhor pessoa para isso, não que alguém aqui neste planeta o seja, mas ao menos gostaria que ele enxergasse a situação e talvez revesse todas essas coisas.

Oh, Juan... você tem tanto potencial e é alguém tão interessante em seu interior... eu vejo, eu sinto. Inexplicavelmente, mas ainda assim.
E como já disse, quando perceber todas essas coisas, ligue-me para conversarmos.
Você será o que vejo em seus olhos e, aí sim, progrediremos juntos.


Por Sódio






Só é bom pra quem não tem


Não existe uma ordem. Possivelmente corrôo, outrora - ao ser inalado - proporciono a sustentação biológica. Não sou, porém, justo. Mato e concedo o dom da vida por conveniência. Minhas conveniências mudam rapidamente. Não me mato porque sou imortal, o que não quer dizer que não tentei. Apesar de um Blog ser exclusivo do Reino dos Humanos, dentro do próprio gênero Homo existem de amebas a baleias, de briófitas a elefantes, de lagartixas a um filósofo. Sou unilateral, não ligo para o valor, moral, de nenhuma dessas entidades. O² para os íntimos. Um nome mais curto não representa a ausência de rusgas. Você precisa de mim e briga comigo. Você fecha o Blog, não me lê mais, não obstante tudo que disse ecoará em sua mente. Até que o Oxigênio não queira mais sustentar vidas - pela escolha dessas vidas.



Sinceramente não sei o nível de metáfora ou literalidade do parágrafo acima, seja para mim, seja para um círculo restrito, seja para o anônimo - aquele para quem EU sou anônimo. Minha primeira reflexão é a seguinte: gostarei do que sou? A resposta da maioria é não. E do que posso vir a ser? "Se alcançasse esse objetivo, finalmente me daria por satisfeito". Essa noção está errada.



Não tenho (mais) namorada (o mais representa muito, posto que é a queda do céu ao inferno). Não sou assalariado. Não que não tenha trabalhado, mas receber aquele quinhão ao final do mês é um privilégio do qual me sinto virgem. Minhas idéias não entram em conformidade com a ordem social - eu gosto da desigualdade, mas me irrito ao ver que na maioria das vezes me encontro do lado de baixo. E então... Projeto-me no corpo de um amigo. Três anos de namoro, vai se casar, estágio onde trabalha pouco e é bem pago - pelo que dele sei é realizado musicalmente (esqueci de dizer: gostaria de tocar bateria ou cantar, o que é impossível por questões genéticas, coordenativas e temporais), apolítico, sabe, daqueles que não se esquentam com facilidade. Sente-se bem. Não tem um Blog oficial ou outros dez em que "bica" - e eu, que sempre ANOTO MAS NÃO ESCREVO no meu, acabo fazendo o bom trabalho no dos outros! Quis dizer que meu amigo, codinome Plutônio, é a vida que eu projeto para mim.



Minhas aspirações são essas. Alguém para "comer todo dia" (sendo bem direto), dinheiro para gastar a curto, médio e longo prazo. Uma banda. Despreocupações. As aspirações de Plutônio são... Não tenho a intimidade necessária.



Despreocupação é o que eu não teria sendo Plutônio. Isso porque eu sou eu, mesmo dentro dele. Começaria a me perguntar "Quando vamos casar?", "Ela vai terminar comigo?", "Quando, como, por que e onde? O que eu a teria feito? Vou sofrer tanto assim - de novo?!", "E a separação dos bens?". Os ciúmes, ah, os ciúmes. Afinal, a namorada dele é novinha mas é bonita. Tenho certeza que Plutônio não pensa nessas coisas. Quanto ao dinheiro, "em que gastar?", "tê-lo-ei para sempre?", "e se eu for demitido? Por justa causa?". Bandas são como relacionamentos, outrossim. Descobri que a vida de Plutônio é tão insatisfatória quanto a minha - pelo menos para mim!



Ah... Estou bem. E ontem eu fiquei melhor ainda do que numa sexta-feira normal, porque me perguntaram "para que escrever em Blog?" (não foi Sódio). Respondi-lhe: ser contra-argumentado. Pelo meu bem, espero que sim. O céu está cinza. O de Plutônio também, embora ele não se dê conta. Não, apaga tudo, o que foi que eu escrevi? Plutônio, você está bem? Terminou com a namorada? Dê-me o endereço dela...


Por Oxigênio